24/07/2008

Tempo oficialmente suspenso

Dado o abandono a que este blog tem estado votado declaro, oficialmente, suspenso o tempo suspenso. Não é um "Fim"; é um "quem sabe, até um dia".
O blog não vai morrer, mas também não vai viver. Digamos que, durante uns tempos, vai estar em estado vegetativo. Depois, logo se vê - sou a favor da eutanásia em seres humanos mas ainda não decidi se concordo com sua aplicação em blogs. Ou, pelo menos, no meu blog.

De qualquer forma, não abandonei a blogosfera. Fica o convite para passarem no Beethoven de Chocolate: um espaço que junta duas pessoas com sérias dificuldades em manter blogs activos. Um projecto que promete, portanto.

Até lá.

19/06/2008

Portugal

E agora, como é que vão sobreviver os jornais, as televisões, os emigrantes devotos de Portugal e de S. Cristiano Ronaldo e os tugas histéricos dispostos a fazer centenas de quilómetros para ver, ao longe e de relance, a ponta do bigode de Scolari?
As bandeiras que andaram por aí a esvoaçar nas janelas e nos carros são para tirar ou para ficar?
Vale a pena continuar a ser português?

fon fon fon

já estava na altura de alguém escrever uma letra que falasse em filarmónicas e clarinetes!
ainda só ouvi quatro músicas do disco de deolinda, mas acho que já estou a ficar fã... aqui fica o fon fon fon:

18/06/2008

os chineses e os seus produtos bizarros

Que é possível encontrar quase tudo nas lojas dos chineses já se sabe há muito tempo. Mas os senhores de olhos em bico não param de surpreender.
Encontrar uma agenda (barata) em Junho não é fácil, por isso fui procurar ao sítio onde se vende tudo. Às lojas de chineses, claro. E, de facto, encontrei uma agenda. Feia. Enorme. Pouco prática. Ainda assim, uma agenda, em pleno Junho. Só tinha um (pequeno) senão: no interior, todas as folhas marcavam o ano de 2006.
Por acaso, uma agenda de 2006 não me dá muito jeito nesta altura. Contudo, acredito que possa haver por aí pessoas a precisar de viajar no tempo e planificar as suas actividades diárias. Por isso, vou fazer serviço público e deixar aqui a dica: quem precisar de uma agenda grande e feia do ano de 2006, é só dirigir-se à baixa de Coimbra. É naquela loja maior, que tem bugigangas no rés-do-chão e vestuário no primeiro andar. Aquela que, no Natal, costuma ter um Pai Natal à porta, a abanar o rabo e a cantar “Santa Claus is coming to town".

Quem é amiga, quem é?

22/05/2008

Soninho

Ainda não é meia-noite e já tenho sono. Acho que isto resume a minha vida de trabalhadora mais-ou-menos-em-part-time. Não é o trabalho em si que cansa – aliás, ainda estou na fase em que não encaro o jornalismo como trabalho – mas sim o horário que tenho de cumprir. Não percebo porque é que o mundo insiste em acordar antes das dez da manhã. Vou precisar de meses para me habituar a esta rotina…
O que é certo é que, por agora, o meu cérebro adormece pouco depois da hora de jantar. Neste momento estou a “teclar” de forma atabalhoada, tenho dificuldade em juntar as palavras às vírgulas e aos pontos finais. Mais: acho que metade do meu vocabulário está fechado num qualquer compartimento inacessível da minha caixa craniana.
Não, isto não sou eu a arranjar uma desculpa para o facto de não actualizar o blog há imenso tempo. Já desisti de encontrar justificações para o injustificável. No fundo, tudo se resume a uma coisa muito simples: preguiça. Porque eu sou realmente preguiçosa, distraída e desorganizada (a propósito, alguém sabe onde se compram agendas a meio do ano?). De maneiras que quem quiser ler qualquer coisinha da minha autoria é capaz de se safar melhor se procurar aqui.

Prometo voltar a actualizar o tempo-suspenso um dia destes, quando as letras não dançarem no ecrã do meu computador e os meus dedos não fugirem para as teclas erradas.

(eu juro que a minha intenção era enscrever um post com um pouco de interesse, mas o sono não me deixou. Peço desculpa, caro leitor…)

29/04/2008

Tenho um telemóvel que só dá para fazer chamadas. Em pleno século XXI, o meu telemóvel está incapacitado de receber e enviar mensagens, tirar fotografias, filmar, reproduzir mp3, aceder à internet ou sequer bloquear o teclado. O meu nokia decidiu regressar às origens e reduzir as suas potencialidades à função primária dos telefones: telefonar. Um flagelo!
Acho que o deus das novas tecnologias decidiu pôr-me à prova. Estive praticamente quatro dias (quatro!) sem internet. Quatro dias (quatro dias!) sem abrir o gmail, sem actualidade noticiosa, sem cargadetrabalhos.net e net-empregos.pt. As minhas aldeias do travian estiveram quatro dias nas mãos de sitters desconhecidos (mas o travian já não me apoquenta).
Resisti como uma menina crescida. Quase consegui esquecer que vivo – ou o mundo ocidental vive – dependente da internet. No entanto, precisamente no dia em que recupero a internet, o meu telemóvel adoece. São coincidências a mais. O deus das tecnologias só pode estar contra mim.
O meu telemóvel ainda está na garantia, por isso dirigi-me à loja onde o comprei. “Isto deve ser problema de software”, disse-me a empregada com ar entendido (“ena, que novidade”, pensei eu). A coisa correu bem até eu pedir um telemóvel de substituição. A loja – cujo nome não vou divulgar, por delicadeza – não tinha nenhum telemóvel livre. Perante a minha insistência (não posso ficar sem telemóvel!), a senhora foi buscar um nokia 3310 (aquele que todos os jovens sonhavam ter há uns 8 anos atrás) que tinha acabado de receber e que não sabia se funcionava. Fiquei um pouco confusa. Segundo o contrato que eu acabara de assinar, o cliente tem de pagar 5 euros de caução para receber um telemóvel emprestado. Ora, para que serve a caução se depois ninguém confirma se o aparelho é entregue em boas condições? Mistérios. Procedimentos demasiado complexos para o meu entendimento. De qualquer forma, o nokia 3310 – que parecia acabado de sair da guerra e que só ligou à segunda ou terceira tentativa – não aceitou o meu cartão. Estava bloqueado. Sim, porque uma loja que vende telemóveis e cartões de todas as redes tem para empréstimo telemóveis bloqueados. Parece-me uma medida lógica.
Conclusão: voltei para casa com o meu telemóvel uni-função. Agora, vou passar os próximos dias a tentar convencer-me que os telemóveis servem para telefonar.

23/04/2008

Dia do Livro

Aproveitei o Dia do Livro para reflectir sobre as obras que li nos últimos meses. Li coisas bastante boas, coisas medianamente boas e... Paulo Coelho (perdoem-me os apreciadores...).
De entre a boa literatura com que me deliciei, resolvi destacar e sugerir aos caríssimos dois leitores que vagueiam pelo meu estaminé um romance de valter hugo mãe: "O Remorso de Baltazar Serapião".
A história, que se passa na Idade Média, gira em torno de Baltazar, um jovem proveniente de uma família pobre, que tem uma relação peculiar com a sua vaca de estimação (ao ponto de correr na aldeia o boato de que Baltazar e os irmãos são filhos da vaca e não da senhora a quem chamam mãe...). Ora, um dia, Baltazar apaixona-se e casa-se com Ermelinda, a jovem mais bela da aldeia. E é aí que as complicações começam. Como é sabido, a mulher (ser burro e inferior) deve respeitar e obedecer ao seu marido (homem e, portanto, sábio e conhecedor das coisas do mundo). Um bom marido, por seu turno, deve saber "educar" a sua esposa-cognitivamente-limitada . Como? Com pontapés, murros, braços torcidos e olhos arrancados, por exemplo. E é aí que o romance ganha contemporaneidade. Ainda que a forma como o autor escreve – tentando recriar a linguagem da época – tenha muitas vezes um registo quase cómico, é impossível (principalmente para as leitoras do sexo feminino) não sentir revolta pela forma como as mulheres são humilhadas ao longo da história. Uma obra desaconselhada a feministas com problemas cardíacos.

Para quem ainda não está convencido, tenho mais um argumento: “O Remorso de Baltazar Serapião” valeu a valter hugo mãe o Prémio José Saramago, em 2007. Sim, valter hugo mãe também brinca com a pontuação (ou com a falta dela), tal como Saramago. E não gosta de maiúsculas.

Para quem está curioso, deixo ainda um excerto do livro, retirado mais ou menos ao acaso (já o li há uns tempos e já não sei ao certo onde estão as melhores passagens):

“a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos. assim se fazia a minha mãe, barafustando de dia, mas liberta das intenções de nos educar coisas inúteis ou falsas, que fizessem de nós rapazes menos homens ou simplesmente iludidos com um mundo que só as mulheres imaginavam."

22/04/2008

Precisa-se comercial (m/f)

O que Portugal precisa é de comerciais. Esta é a principal lição que retiro de cinco meses de consultas diárias a sites de anúncios de emprego. Faltam médicos nos hospitais? Talvez isso se resolva com a contratação de mais um ou dois comerciais. Há professores a mais? Não há problema, há por aí muita vaga de comercial para lhes dar de comer. O trabalho de pedreiro é demasiado duro? Está na hora de responder a um anúncio de comercial.
A formação académica pouco interessa. Só é preciso ter "boa apresentação", "boa capacidade de trabalho", "dinamismo" e "ambição pessoal". E para os mais tímidos ou com uma apresentação menos boa há sempre o telemarketing. A promessa, essa, é sempre a mesma: rendimentos acima da média.

Quando os portugueses descobrirem esta mina dos ovos de ouro vamos tornar-nos num país de ricos. E depois podemos fechar escolas, fábricas, jornais, serviços públicos e todos esses locais de trabalho a que o comum mortal está habituado. Dez milhões de pessoas a vender banha da cobra entre si, eis a receita para acabar com o desemprego.

18/04/2008

É (mesmo) tão bom

Não resisto.
Estava a ouvir o "Nove e meia no Maria Matos" e cheguei a esta música. Confesso que não tenho a certeza se me lembro dos desenhos animados "Os amigos do Gaspar". Tenho uma vaga ideia daqueles bonecos mas não sei se estou a confundi-los com outros quaisquer. Naquela altura os bonecos eram todos iguais: toscos e desengonçados (e eram tão mais engraçados assim!). Além disso, toda a minha infância se resume a dois desenhos animados: a Rua Sésamo e o Babar. O certo é que, agora que passaram uns anitos, apercebo-me que a música da Rua Sésamo - ainda que tenha aquele gosto doce de nostalgia - fica encolhida num canto envergonado quando confrontada com a música d'"Os Amigos do Gaspar".
Posso dizer que o Sr. Sérgio Godinho é genial?

Gmailodependência

Padeço de uma doença nova e invulgar que eu própria descobri. Ainda não registei a patente, mas decidi chamar-lhe gmailodependência. Ora, a gmailodependência é uma perturbação do foro psicológico que leva o indivíduo a desenvolver uma obsessão pelo seu gmail. Uma espécie de vício, ainda que não cause suores e espasmos quando o corpo não recebe a dose certa de horas em frente ao gmail.
Chamei-lhe gmailodependência e não simplesmente mailodependência porque o sentimento de falta só se verifica em relação ao gmail. Vejamos: consigo perfeitamente passar um ou dois dias sem abrir o meu e-mail da Hotmail sem que isso me cause qualquer tipo de transtorno; aliás, por vezes até me esqueço da existência dessa caixa de correio electrónico. Contudo, uma hora sem fazer refresh no gmail deixa-me angustiada. A quantidade de mensagens que posso (não) receber numa hora! Mais: sou capaz de dar uma escapadinha à internet e nem sequer verificar como estão as minhas aldeias do travian. Mas o gmail, esse, não posso deixar de espreitar. Eu sei que este comportamento deve parecer estranho àqueles que têm vícios normais e saudáveis – como o vício do travian, por exemplo – mas este tipo de maleitas são mesmo assim. Não as escolhemos, apanham-nos sempre desprevenidos.
Apesar de ser difícil lidar com esta doença, tenho conseguido manter uma vida quase normal. Abrir o gmail de manhã, depois de almoço, ao fim tarde e à noite tem chegado para me manter calma ao longo do dia. Ainda nem foi preciso recorrer a calmantes. De qualquer forma, vou ver se descubro a medicação para me livrar por completo deste vício. É que daqui a uns meses vem o Verão e quero poder estar na praia descansada, sem ver as letras “caixa de entrada” reflectidas no mar.

17/04/2008

“I am lengend” ou “como estragar um filme em poucos minutos”

A imagem de um homem a deambular sozinho numa cidade destruída, a conversar apenas com a sua cadela e com bonecos-manequins com quem se cruza na rua, sujeito a um recolher obrigatório ao anoitecer para se proteger de mostrengos raivosos é, quanto a mim, bastante perturbadora. Não sendo um filme genial, “I am legend” até foi interessante e agarrou-me ao ecrã durante algum tempo. Os cenários de Nova Iorque devastada são muito bons, Will Smith consegue carregar o filme nos ombros praticamente sozinho sem que isso se torne aborrecido – pelo contrário, o actor consegue transmitir na perfeição a angústia, sofrimento e frustração que é suposto sentir o último habitante da terra. E depois há a cadela Sam, uma ternura (merecedora de um Óscar).
Há bons momentos de suspense até metade do filme mas à medida que se aproxima o final o desinteresse vai ganhando terreno. Andou Will Smith sozinho durante três anos à procura da cura para o vírus que quase destruiu a humanidade e, de repente, Deus aparece para, do alto da sua grandiosidade, mostrar o caminho para a salvação. Apetece dizer: “onde andou Deus durante aqueles três anos, que não pôde aparecer mais cedo?”. Em poucos minutos, Smith encontra a cura para o vírus e abdica da sua própria vida para salvar o mundo. E os poucos que sobreviveram até ali, “fechados numa zona segura” (sim, afinal havia mais gente), viveram felizes para sempre, presume-se. Estou a estragar a surpresa a quem estivesse interessado em ver o filme pela primeira vez? Nem por isso. O final não surpreende ninguém, a não ser que seja pela negativa. Previsível, precipitado e pouco convincente. E assim se estraga o que até podia ser um bom filme.

[Sim, eu sei que este filme já saiu em 2007 e que, em Abril de 2008, já meio mundo o deve ter visto, o que faz com que este post não tenha qualquer pertinência. Mas eu ainda tenho esperança que haja mais uma ou duas pessoas como eu, que vão pouco ao cinema e vêem sempre os filmes com vários meses de atraso :p]

05/04/2008

os fuso-horários da tv portuguesa

A aborrecida repetição da programação televisiva torna-se hilariante quando ligamos a televisão ao sábado à tarde e está a dar o "Sexta à noite".

abstracção sem título

O mundo de Cristina só conhecia dois espaços: a casa apertada da mãe, onde morara desde sempre e onde cresciam agora os seus três filhos; e o café onde trabalhava de segunda a sábado. A uni-los, o comboio suburbano, sempre apinhado de gente, que ligava a pequena aldeia de Cristina à cidade que parecia enorme a seus olhos, mas que não passava de uma aldeia um pouco mais gorda que as restantes.
Sete da manhã, o comboio avança, pouca terra, pouca terra, e Cristina vai pensando no que deixou para trás. O filho mais novo já vestido e com o pequeno-almoço tomado; o filho do meio, que acordou com febre e foi autorizado a faltar às aulas; o filho mais velho, sempre revoltado com tudo e todos, que ficara na cama mas prometera não chegar atrasado ao trabalho. Três filhos, todos homens. Três pais, todos desaparecidos. Duas mulheres – uma delas já sem força e um pouco esquecida de memórias e obrigações – para pôr ordem na casa. O pequeno ordenado de Cristina para a comida, as fraldas, a limpeza, a luz, a água, o gás, os livros, as canetas, a roupa, o empréstimo da televisão. A curta reforma da mãe para ajudar nas despesas. Os trocos ganhos pelo filho mais velho para a mota, os ténis de marca e o telemóvel.
A viagem de comboio funciona como horário de descanso da vida de Cristina. Longe da rebeldia e indignação do filho mais velho, das dúvidas com a matemática do do meio, dos choros e birras do mais pequeno, da rabugice da mãe, sempre confundida com os horários e esquecida de onde pousara o comando da televisão. Longe do patrão que reclama trabalho mas não paga horas extraordinárias, da ladainha constante do “era um café se faxavor”, dos piropos dos clientes e dos olhares de inveja das senhoras. Sim, porque Cristina – 35 anos, três filhos, ginásio nunca visto, comida calórica ao jantar, sandes ao almoço quando calhava ter cinco minutos para a refeição – mantinha um corpo invejável. Cristina sabia-o mas não podia perder tempo a pensar nisso. O seu mundo dividido entre a casa e o café era demasiado absorvente.
O comboio atrasa-se, como vem sendo hábito. Cristina corre para o café. Veste a bata. Liga a máquina. Entram os clientes. Cafés com e sem cheirinho, torradas, bolos de arroz, são dois euros e meio por favor, galões, minis, vinho tinto, não se esqueça do troco, pastilhas elásticas, mais cafés, mais torradas, mais bolos, mais galões, Cristina cansada. Os vidros têm de estar a brilhar, a louça é para lavar, o chão para limpar. Seis da tarde, novo comboio para apanhar. Finalmente, mais cinquenta minutos de folga na agitação da vida.
Cristina chega a casa e encontra os dois filhos mais novos a ver desenhos animados na televisão. A mãe quer ver o preço certo mas não pode mudar de canal porque não sabe onde pôs o comando. De certeza que os teus filhos o esconderam, reclama. O mais velho? Ainda não chegou, o costume, é um vadio. O jantar? Ainda há resto de sopa de ontem. Outra vez sopa não, reclama o filho febril. Cristina frita batatas e estrela uns ovos. O mais novo quase adormece à mesa, o do meio já quase não tem febre mas acha melhor não ir à escola no dia seguinte. O mais velho chega tarde mas com uns óculos de sol novos. Já comeu uma bifana lá fora mas ainda é capaz de morfar umas batatas fritas em óleo velho. A mãe reclama que se janta muito tarde lá em casa e que tinha um recado importante para dar a Cristina mas a cabeça está esquecida.
Na televisão comprada a prestações, fala-se de leis e ministros, da guerra num tal de Iraque, do aumento do IVA. Cristina não ouve. Aquelas coisas não fazem parte do seu mundo, não lhe interessam, não as percebe. A seguir há louça para lavar, filhos para deitar, roupa para engomar. Adormece à meia-noite mas é acordada várias vezes: o filho mais novo ainda não consegue dormir uma noite seguida; o filho do meio afinal ainda tem mesmo febre, fala durante o sono e acorda sobressaltado; a mãe confunde-se com as horas e levanta-se antes do sol nascer. Contudo, Cristina não reclama. Sabe que pode descansar no comboio. Sabe que tem a melhor família do mundo que conhece e do outro mundo, que nunca viu. E isso basta-lhe.

03/04/2008

Cavalheiros do Apocalipse




Ainda vi poucos vídeos mas já deu para perceber que são todos bastante parvos. Humor com pronúncia do Norte. Gosto!
Vou continuar a ver parvoíces, aqui

Famílias numerosas

Alguém me consegue explicar como é que o jornal “Sol” mantém as editorias “Conversas na prisão” (no caderno principal) e, sobretudo, “Famílias numerosas” (na Tabu)? Sou só eu que acho que o interesse daquilo se esgotou logo ao fim do primeiro mês? Ok, confesso, nunca me interessei particularmente por aquele tipo de "jornalismo". Mas, vá, mesmo quem gosta, não devia estar já um bocadinho aborrecido de ler sempre o mesmo tipo de estórias?
Ainda assim, admiro os senhores da Tabu por conseguirem encontrar tanta família numerosa e feliz por esse Portugal fora. Já devem sobrar poucas.
Deliciem-se com o superlead publicado na última edição:

Nove filhos, sete raparigas e dois rapazes, enchem de alegria a vida da aldeia Chão de Sobral onde o clã Luís ergue a sua ‘fortaleza’. Harmonia e simplicidade reunidas numa família especial.

Ora, o "Sol" foi lançado em Setembro de 2006 e, desde então, apresenta uma família numerosa todas as semanas. Segundo as minhas contas, já posaram para os fotógrafos da Tabú mais de 70 famílias. Mas, atenção, esta é especial! Não duvido.

31/03/2008

a culpa é do telemóvel

A RTP aproveitou o recomeço das aulas para ir à escola Carolina Michaelis falar com alguns estudantes e perceber se os problemas entre professores, alunos e telemóveis são comuns. Um dos entrevistados declarou sem hesitações e com o ar mais natural do mundo:

Eu também foi por causa do telemóvel. Mas não andei assim à luta. Disse só "stôra, dê-me o telemóvel" e depois comecei a chamar-lhe nomes. Não foi grave.

Pois claro, não é nada grave. Quem não se lembra de insultar os professores quando era repreendido nas aulas? Bater é feio; insultar não. Até foi meiguinho, o rapaz.

Não, pensando bem, não acho muito normal. Talvez o jovem estivesse um pouco confuso. Quem será o culpado por este comportamento desajustado? Ah, já sei, só pode ser o telemóvel, esse bicho abominável que hipnotiza as pessoas e as instiga a reagir de forma incorrecta!
Pobres telemóveis, são cada vez mais pequenos e leves mas têm as costas largas...

Ezequias, o macaquinho jornalista


Estava a vaguear pelas memórias guardadas no disco rígido do meu portátil falecido e encontrei algumas fotografias do Ezequias. Para quem não conhece, o Ezequias era o macaco-mascote-companheiro de alguns sócios tolos da Secção de Jornalismo da AAC.
O Ezequias chegou à Sexão nu-como-veio-ao-mundo, mas a nossa alfaiate de serviço fez-lhe um traje académico. O macaquinho nunca mais largou o fato e passou a acompanhar-nos para todo lado. Saía à noite, brincava aos jornalistas com a malta… até tirou fotografias para a plaquete, desfilou no cortejo da Queima e foi ao Chá Dançante. Era um doido!
O Ezequias lembrou-me Coimbra e deixou-me com saudades. Era bom trabalhar (bastante) no meio da (muita) parvoíce. Era bom ter os dias ocupadíssimos mas conseguir arranjar sempre forma de perder (imenso) tempo com palhaçadas. Era bom não ter tempo para dormir. Era bom ir ao Tropical “só para tomar café” e acabar por ficar até ser expulsa, à hora de fechar. Enfim, era bom estar com pessoas que agora praticamente não vejo.
Não queria voltar à mesma vida. Coimbra e a vida de estudante são um período que há muito dei por terminado. Tive a dose certa – se ficasse mais tempo talvez tudo perdesse um pouco do encanto. No entanto, é impossível não ficar nostálgica ao relembrar pequenas coisas – como o macaquinho Ezequias – que tornaram aqueles quatro anos inesquecíveis. Ficam as memórias. E a vida segue dentro de momentos.

27/03/2008

Tropa de Elite

Acabei de ver o filme (ou deveria dizer documentário?) de José Padilha. Ainda estou a digeri-lo.

Sim, já sabia que polícias e habitantes das favelas do Rio de Janeiro não são propriamente os melhores amigos.
Sim, já sabia que oposição clara entre bons e maus, com os bons a saírem sempre vitoriosos, só acontece nos desenhos animados e na ficção-tipo-pastilha-elástica.
Sim, já sabia que o uniforme da polícia não garante incorruptibilidade nem bom senso.
Mas corrupção resolvida com corrupção em dose dupla e a banalização completa da vida humana são coisas que ainda me deixam impressionada.

O que choca não é o filme em si, mas pensar que tudo aquilo acontece realmente. E quase não era precisa a explicação antes do filme para eu acreditar que a história é verdadeira. A personagem interpretada por Wagner Moura chega a ser assustadora de tão dura e real. De certeza que ele não faz uma perninha na BOPE, nas horas vagas? Eu diria que ele invade favelas à noite desde miúdo...

Enfim, faz bem levar um banho de vida real de vez em quando, para perceber como é o mundo fora deste rectângulozinho (apesar de tudo, ainda ) pacato.

26/03/2008

recado

Parece que o tempo anda mesmo suspenso por aqui.
Acontece que a vontade de escrever surge nas alturas menos próprias – quando não estou em casa, ou quando já estou na cama, a tentar dormir. Além disso, acho que escrever posts e mais posts sobre a minha condição de desempregada pode tornar-se aborrecido. E, quando estou em frente ao computador, o (des)emprego afugenta todos os temas interessantes que tentam timidamente captar a minha atenção.
Mas, já que falei de desemprego, aproveito deixar um recado:

Empregados, estudantes e reformados deste país, por favor, não repitam constantemente a pergunta “então, ainda não arranjaste emprego?” a um desempregado. É que, como é que hei-de explicar… é aborrecido. Enerva. Mesmo.

O problema não é a pergunta em si, mas a forma como é feita, quase sempre em tom reprovador. Algumas pessoas vomitam a questão com desprezo, como quem diz “de certeza que nem tens procurado emprego, gostas é de estar à boa vida em casa”. Outras parecem achar piada à situação e falam em tom irónico, como quem morde o lábio para não rir e gritar “ainda não percebeste que com a porcaria de curso que tiraste nunca vais conseguir ter emprego?”.
Ora, tenho uma novidade para os senhores do tipo um: estar em casa sem nada que fazer não é, de todo, sinónimo de boa vida. Pelo contrário, é péssimo e pode causar sérias perturbações mentais (acho que já começo a sentir algumas – se calhar é por isso que estou a escrever este post). Para aqueles que se encaixam no perfil tipo dois, lamento informar que prefiro viver frustrada por não ter conseguido atingir os meus objectivos mas poder dizer que tentei, do que viver igualmente frustrada por fazer o que não gosto durante toda a vida, sem sequer ter tentado a minha sorte.
Gosto de escrever. Gosto de jornais. Gosto de literatura. Gosto de história. Gosto de música. Gosto de conversar.
Tremo quando vejo sangue; não tenho paciência para equações, fórmulas matemáticas, microscópios e bichinhos invisíveis a olho nu; não gosto de rotina; detestava trabalhar fechada numa fábrica.
Em suma, tenho tudo para ser uma caixa de supermercado bastante competente. Mas, de qualquer forma, não desisto de ser jornalista.

Amanhã começa um novo ciclo de e-mails, telefonemas, cartas de apresentação e currículos. Pode ser que um dia tenha sorte. De qualquer forma, prometo tentar não falar (muito) mais de emprego neste blog. Juro que não quero fazer deste espaço um "querido diário".

Obrigadinha pela atenção das duas pessoas que conseguiram chegar ao final deste post enorme. Vá, agora vão lá arranjar qualquer coisa de jeito para fazer.

Ainda aí estão?

19/03/2008

dilema

O que é pior?

Não ter resposta nenhuma
ou
receber respostas contrárias aos nossos desejos?

11/03/2008

novos pecados mortais

Manipulação genética, poluição do ambiente, uso de drogas, aborto, pedófilia e desigualdades sociais fazem parte da lista dos novos pecados mortais, divulgada pelo Vaticano. Justificação: "adaptação dos pecados sociais à realidade da globalização”.

E eu que pensava que a melhor forma de a Igreja se adaptar à realidade do século XXI era acabar com certas e determinadas proibições... Afinal parece que é ao contrário.

Ah, mas quanto à condenação das desigualdades sociais, já houve uma vez um senhor que teve essa ideia e até já foi criada uma religião com base nesse principio. Chama-se comunismo.

05/03/2008

à procura de emprego

Vamos realizar uma entrevista sábado às 9horas, em Moscavide. Os interessados devem enviar um email para xxxxx@xxxxx.pt, com o título ‘vou à entrevista’, porque vocês fazem parte dos 10 primeiros seleccionados, ainda tenho 290 emails para ver.
[Excerto de um e-mail de resposta a uma candidatura a emprego]

Em pouco mais de 24 horas, um anúncio colocado no site "net-empregos" rendeu – a confiar nos dados do mail de resposta – 300 candidaturas. Trezentos jornalistas ou aspirantes a jornalista, como eu, colados ao computador a enviar currículos. Cerca de treze currículos por hora a cair na caixa de e-mail desta empresa.
Será que alguém se dá ao trabalho de ler tanto e-mail? Qual será a melhor hora para enviar a candidatura? Desta vez tive a sorte de conseguir resposta por estar entre as 10 primeiras pessoas a enviar curriculo. Mas já noutras vezes me candidatei mal o anúncio foi colocado online e ninguém me respondeu…
Agora resta saber, entre estes 10 seleccionados, quem está disposto a estar às 9 horas da manhã de sábado em Moscavide, para lutar por um trabalho com horários tramados, sem contrato nem ordenado nos dois primeiros meses, e sem qualquer garantia de permanecer na empresa depois de terminado o "período de escravatura”…
Aposto que mais de metade não vai recusar e que nem vai ser preciso abrir os outros e-mails (que agora já devem ser para aí uns 500)...

01/03/2008

Via Latina nº5


O cheirinho daquelas páginas é inconfundível. Cento e dezanove anos depois, aí está o quinto número da sexta série da revista "Via Latina". Eu já tenho a minha. E o caro leitor, de que é que está à espera?
“Nas linhas da imaginação”, numa banca perto de si [caso viva em Coimbra, claro].

28/02/2008

Acabou hoje

Parece que sou oficialmente licenciada em Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Mal saí da bonita e arejada sala do IEJ onde terminei o meu curso, fiz a mim própria a questão base do “bom” jornalismo:
Sandra, como é que te sentes?

Sinto-me igual. Afinal, a conclusão da licenciatura é a parte menos empolgante destes quatro anos. Na verdade, para mim o curso acabou em Julho, quando saiu a última Cabra em que colaborei e quando empacotei a minha vida nos caixotes que o senhor Ferreira da mercearia gentilmente me cedeu. A única diferença é que, agora, quando enviar currículos a dizer que sou licenciada, já não estou a mentir. Ah, e posso usar licenciada como primeiro nome. Se bem que "Licenciada Sandra Mesquita Ferreira" não soa muito bem. Se calhar, em vez disso, vou antes assinar "Dótôra [mas tem de ser com acento no "o"] Sandra Mesquita Ferreira".
Ou então fico-me, simplesmente, pelo "SMF".

26/02/2008

Mariana passava os dias à espera do telefonema. Comprou um telemóvel novo – daqueles com toques polifónicos, câmara de filmar, rádio, televisão, bússola e termómetro – e preparou-se para o momento que mudaria a sua vida. Treinou afincadamente as respostas às perguntas que lhe seriam colocadas. Repetiu o cenário imaginário trezentas e sessenta e quatro vezes até que começou a confundir os advérbios com as conjunções. Decidiu então que não treinaria mais e, quando o telefone tocasse, improvisaria.
Mariana esperou sentada no chão da varanda de sua casa. Dias. Semanas. Meses. Até que veio o Inverno e a chuva e Mariana teve de passar a aguardar na sala, recostada no seu puff verde-esperança, com o telemóvel no bolso do avental.
Os dias de Mariana eram todos iguais: acordar, olhar para o telemóvel, vestir-se, olhar para o telemóvel, comer, olhar para o telemóvel, ver televisão, ver o telemóvel, o telemóvel, o telemóvel… Maldito telemóvel que não tocava!
Mariana começou a achar que eram as canções que escolhia para toque que lhe estavam a dar azar. A partir daí, mudava de música todos os dias, na procura infrutífera da banda sonora ideal. Queen, Smashing Pumpkins, Radiohead, Celine Dion, Ornatos Violeta, Delfins, Santos e Pecadores, Excesso, Ágata – todos passaram pelo telemóvel de Mariana, mas nenhum chegou a presenteá-la com a sua música.
Assim se passaram anos de dias iguais e aborrecidos. Até que um dia, estava Mariana a dormir a sesta no sofá, embrulhada na sua manta de algodão – o seu corpo já não se sentia confortável no velho puff verde-esmorecido – quando a voz do padre Borga saiu dos pequenos orifícios do telemóvel. Acordou sobressaltada. Finalmente, o telefonema chegara! Desajeitada como sempre fora, trôpega da velhice e do sono, deixou cair o telemóvel, que se perdeu por entre a manta. Desesperada, sacudiu o cobertor, seguiu os aleluias entoados pelo padre e, no último segundo, conseguiu atender a chamada. “Estou a falar com a D. Mariana Paciência?” – ouviu-se do outro lado. “Sim, é a própria” – deixou sair a velha numa voz esganiçada de emoção. “Posso fazer-lhe algumas perguntas?”. “Claro, estou à disposição” (Marina quase tinha um enfarte agudo do miocárdio com tanta alegria). A voz continuou: “Estou a fazer um inquérito sobre os hábitos do portugueses, para um estudo da universidade de…”. “Um inquérito?” interrompeu Mariana. “Sim, são só umas perguntinhas, não demora mais de cinco minutos”. Mariana desligou bruscamente o telemóvel, as lágrimas a escorregarem-lhe pela face. Esmigalhou-o em quantos bocadinhos conseguiu e enterrou os restos mortais no quintal, debaixo da laranjeira. Voltou a deitar-se, enroscada na sua manta quentinha, e adormeceu.

21/02/2008

Ele há coisas giras II

«Manuel Rosa, o responsável da editora Assírio & Alvim, foi ontem dado como morto. Através de SMS, telefonemas e até da blogosfera, a notícia, que era falsa, correu de Lisboa ao Porto(…)"Terça-feira à noite, alguém que não sabemos quem é, mas que esperamos que a polícia descubra, telefonou para muita gente minha conhecida, desde os meus pais a amigos próximos, a contar uma história em que eu teria morrido num acidente de automóvel", explicou ontem o editor ao PÚBLICO.»
("Público" de 21/02/2008)

Ok, esta nem é assim tão gira. É até um bocado triste. Quem é que se lembra de gastar dinheiro em chamadas telefónicas para anunciar uma morte que não existe? Há por aí pessoas muito estranhas. Deve ser excesso de tempo livre. Mas, com tanto telelixo e chats da teletexto para ocupar o tempo, era mesmo preciso incomodar os amigos do sr. Manuel Rosa?

Ela há coisas giras I

«Contra as interdições impostas pela Lei do Tabaco, a Associação de Bares da Zona Histórica do Porto desafiou ontem os seus associados a transformar as suas empresas em associações culturais e recreativas sem fins lucrativos como forma de contornar a proibição de fumar. "É como um espaço privado, onde é permitido fumar", sustentou António Fonseca, daquela associação, baseando-se no facto de, dentro das tipificações estabelecidas, a Lei n.º 37/2007 ser omissa relativamente às associações culturais. (…) Para frequentarem os bares e discotecas, os clientes passarão a ter que se registar como sócios. "A maioria das discotecas já trabalha com listas de clientes. Não será muito diferente: o que altera é a figura jurídica do estabelecimento", sublinhou António Fonseca, sustentando que "o cliente pode fazer a inscrição à entrada, pagando uma quota simbólica de um euro".»
(Jornal "Público" de 21/02/2008)

Os portugueses são mesmo muito bons no que toca a contornar a legislação. Pelo menos não podem ser acusados de falta de vontade ou de imaginação. Parece-me uma boa ideia, é uma forma de reforçar os laços entre os frequentadores da noite e de voltar “ao tempo antigo”, em que toda a gente era sócia da associação da aldeia. E, calha bem, já que vamos todos ficar com a carteira mais vazia com a introdução do cartão do cidadão, podemos utilizar o espaço livre para pôr os cartões de sócio das discotecas. Ou será que não vai haver cartões? E aqueles cobradores de cotas que vão bater à porta de todos os sócios, também vão renascer, ou nem por isso?

20/02/2008

o lado fixe da vida

O meu dicionário pessoal de língua portuguesa ganhou ontem uma palavra nova: "vernheque". O que é que quer dizer vernheque? Não interessa, é uma palavra gira, que soa bem. E isso chega. Ora, vernheque e o lema "olha sempre para o lado fixe da vida (ou da morte)" foram dois dos importantes contributos da peça "Os Melhores Sketches dos Monty Python" para a minha vidinha futura.
Há muito que aguardava impaciente e ansiosamente a oportunidade de ver esta peça. As expectativas eram, portanto, bastante altas mas não saíram defraudadas. Os sketches dos Monty Phython são, como se sabe, deliciosamente parvos. O Nuno Markl também é bastante bom no que toca a parvoíces e fez uma adaptação bastante catita. E aqueles cinco palhaços (no bom sentido do termo) que sobem ao palco estão à altura do desafio.
O trabalho de José Pedro Gomes e António Feio já é sobejamente conhecido e não espanta muito. Jorge Mourato - o actor sobre o qual tinha mais dúvidas, por não associar a este tipo de humor - esteve bem, principalmente quando interpretava papéis femininos. A morte da mãe do criador da piada assassina, protagonizada por ele, foi um dos momentos mais hilariantes da noite. Bruno Nogueira mostrou que sabe ser actor e fazer rir sem utilizar o seu habitual e característico registo monocórdico. Além disso, o facto de ser alto e desengonçado só aumenta o grau de comicidade das cenas onde participa. Mas a principal surpresa da noite foi mesmo Miguel Guilherme, o melhor em palco. Até custa a crer que aquele é o mesmo senhor de ar sisudo que ralha com o Carlitos aos domingos à noite, na série "Conta-me como foi". Muito bom.
Em resumo: gostava de repetir a experiência, não só porque o espectáculo é bom como também porque perdi várias piadas devido à péssima qualidade de som do Coliseu do Porto. Quem me mandou armar em fina e ir ver a peça sentada nos bancos de pedra do Coliseu, a vários quilómetros de distância do palco, em vez de me ter ficado pelas cadeiras almofadadas e fofinhas do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz? Pois, ninguém. É a chamada estupidez de quem nunca tinha entrado no Coliseu do Porto. Para a próxima já não me enganam. Mas, enfim, vou esquecer esse pormenor. Afinal, há que olhar sempre para o lado fixe da vida. Vernheque.

12/02/2008

Snoopy


11/02/2008

"José Arcadio Buendía deu consigo, certa noite, às voltas na cama sem conseguir dormir. Úrsula, que também acordara, perguntou-lhe o que tinha e ele respondeu-lhe: «Estou a pensar outra vez em Prudencio Aguilar». Não dormiram um minuto, mas no dia seguinte sentiram-se tão descansados que se esqueceram da noite mal passada. [...] Não se alarmaram até ao terceiro dia, quando, à hora de se deitarem, se sentiram sem sono e se deram conta que estavam há mais de cinquenta horas sem dormir.
- As crianças também estão acordadas - disse a índia com a sua convicção fatalista. - Uma vez entrada em casa, ninguém foge à peste.
Com efeito, tinham contraído a doença da insónia".
[Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Márquez]


Tenho tido pouco sono. Logo eu, que adoro dormir! Ainda hoje acordei às 6h30 da madrugada e não conseguir voltar a adormecer...


será que a peste da insónia também se instalou em minha casa?

17/01/2008

(in)utilidade

Às vezes dou por mim a reflectir sobre a inutilidade dos meus dias.
Depois, para compensar a falta de rotinas e obrigações (já que não consigo instituir o relatório de estágio como uma rotina diária) estabeleço objectivos a alcançar. Por exemplo, no início da semana decidi que ia criar a minha terceira aldeia no sector 1 do travian. Agora, com o primeiro objectivo cumprido, o próximo passo é conseguir ultrapassar a fasquia dos 1000 habitantes nas minhas aldeias. Para isso, tenho de manter o computador ligado quase todo o dia e vigiar constantemente o meu jogo - desenvolver campos de cereais e edifícios, atacar outra aldeias e evitar que me ataquem. Ora, isto requer muito empenho e dedicação.

Acho que já ninguém me pode acusar de andar à boa vida ou de me estar a acomodar à ideia de assistir a passagem dos dias sentada confortavelmente num grande sofá sonolento.

Pronto, agora que já provei que sou útil à sociedade, vou ali sentar-me a ver telelixo.

15/01/2008

há músicas assim

há músicas assim. que têm qualquer coisa de especial. que entram dentro de nós e nos fazem cócegas e comichões agradáveis. que nos alegram os dias e nos põem a cantarolar sem darmos conta. que fazem nascer uma réstia de esperança e acreditar que o que quer que nos atormente se vai resolver em breve.
estou a exagerar?
talvez. mas esta música faz-me sentir bem. esta e outras de um disco que aconselho.
músicas leves mas não descartáveis; sonoridades por vezes algo estranhas mas que se entranham (já diz o ditado); a guitarra portuguesa a brincar com a bateria; o acordeão a meter-se no meio do jogo; a voz fantástica de Marisa Pinto que tanto brilha a lamentar o amor (em "Amar como te amei") como a contar estórias 'tugas' em ritmo abrisileirado (em "Zé Lisboa). e uma surpreendente instrumental - "Fragmagens" - a piscar o olho a Rodrigo Leão.


há amores assim
donna maria

Há amores assim
Que nunca têm início
Muito menos têm fim
Na esquina de uma rua
Ou num banco de jardim
Quando menos esperamos
Há amores assim

Não demores tanto assim
Enquanto espero o céu azul
Cai a chuva sobre mim
Não me importo com mais nada
Se és direito ou o avesso
Se tu fores o meu final
Eu serei o teu começo

Não vou ganhar
Nem perder
Nem me lamentar
Estou pronta a saltar
De cabeça contra o mar

Não vou medir
Nem julgar
Eu quero arriscar
Tenho encontro marcado
Sem tempo nem lugar

Je t’aime je t'adore
Um amor nunca se escolhe
Mas sei que vais reparar em mim
Yo te quiero tanto
E converso com o meu santo
Eu rezo e até peço em latim

Sem lágrima caída
Sou dona da minha vida
Sem nada mais nada
De bem com a vida

Quando te encontrar sei que tudo se iluminará
Reconhecerei em ti meu amor, a minha eternidade
É que na verdade a saudade já me invade
Mesmo antes de te alcançar
É a sede que me mata
Ao sentir o rio abraçar o mar

14/01/2008

era uma vez no Porto


Saudades da altura em que valorizava cada minutinho de tempo livre.

Saudades de aproveitar os dias sem compromissos para descobrir os cantinhos bonitos da cidade.

Saudades das parvoíces
vividas na casa-que-afinal-não-era-tão-perfeita-como-parecia-à-primeira-vista-mas-que-mesmo-assim-nem-era-má-de-todo.

13/01/2008

lei do tabaco

Já muito se tem falado sobre a lei do tabaco. Não sou fundamentalista: não acho que as pessoas devam ser obrigadas a deixar de fumar ou tenham de o fazer na rua, de guarda-chuva na mão.
Mas sempre achei que não é justo para os não-fumadores terem de respirar o fumo dos outros. Porque é prejudicial à saúde. Porque é incomodativo. Porque o cheiro impregnado na roupa, no cabelo e na pele são um preço demasiado alto a pagar por uma simples ida a um bar ou discoteca.

Foi com um misto de espanto e alegria que ontem à noite, quando cheguei a casa, me apercebi que a minha roupa cheirava apenas a roupa e que o meu cabelo cheirava ainda a champô. Confesso que, quando entro em espaços públicos, raramente me lembro que já não se pode fumar. Não porque antes o fumo me passasse despercebido, mas porque tudo parece muito mais natural assim. E, por isso, só ontem me apercebi, realmente, que a lei estava ser cumprida.

Ok, talvez a lei tenha de levar alguns ajustes, talvez devam ser criados mais espaços para fumadores. Mas - os fumadores que me desculpem e preparem a armas para me atacar violentamente - eu gosto bem mais das coisas assim.

11/01/2008

tempo suspenso

"Sinto-me a viver numa espécie de tempo suspenso - nem lá nem cá, sem pátria, sem lar, sem vida normal e sem saber até quando".

in Rio das Flores