O mundo de Cristina só conhecia dois espaços: a casa apertada da mãe, onde morara desde sempre e onde cresciam agora os seus três filhos; e o café onde trabalhava de segunda a sábado. A uni-los, o comboio suburbano, sempre apinhado de gente, que ligava a pequena aldeia de Cristina à cidade que parecia enorme a seus olhos, mas que não passava de uma aldeia um pouco mais gorda que as restantes.
Sete da manhã, o comboio avança, pouca terra, pouca terra, e Cristina vai pensando no que deixou para trás. O filho mais novo já vestido e com o pequeno-almoço tomado; o filho do meio, que acordou com febre e foi autorizado a faltar às aulas; o filho mais velho, sempre revoltado com tudo e todos, que ficara na cama mas prometera não chegar atrasado ao trabalho. Três filhos, todos homens. Três pais, todos desaparecidos. Duas mulheres – uma delas já sem força e um pouco esquecida de memórias e obrigações – para pôr ordem na casa. O pequeno ordenado de Cristina para a comida, as fraldas, a limpeza, a luz, a água, o gás, os livros, as canetas, a roupa, o empréstimo da televisão. A curta reforma da mãe para ajudar nas despesas. Os trocos ganhos pelo filho mais velho para a mota, os ténis de marca e o telemóvel.
A viagem de comboio funciona como horário de descanso da vida de Cristina. Longe da rebeldia e indignação do filho mais velho, das dúvidas com a matemática do do meio, dos choros e birras do mais pequeno, da rabugice da mãe, sempre confundida com os horários e esquecida de onde pousara o comando da televisão. Longe do patrão que reclama trabalho mas não paga horas extraordinárias, da ladainha constante do “era um café se faxavor”, dos piropos dos clientes e dos olhares de inveja das senhoras. Sim, porque Cristina – 35 anos, três filhos, ginásio nunca visto, comida calórica ao jantar, sandes ao almoço quando calhava ter cinco minutos para a refeição – mantinha um corpo invejável. Cristina sabia-o mas não podia perder tempo a pensar nisso. O seu mundo dividido entre a casa e o café era demasiado absorvente.
O comboio atrasa-se, como vem sendo hábito. Cristina corre para o café. Veste a bata. Liga a máquina. Entram os clientes. Cafés com e sem cheirinho, torradas, bolos de arroz, são dois euros e meio por favor, galões, minis, vinho tinto, não se esqueça do troco, pastilhas elásticas, mais cafés, mais torradas, mais bolos, mais galões, Cristina cansada. Os vidros têm de estar a brilhar, a louça é para lavar, o chão para limpar. Seis da tarde, novo comboio para apanhar. Finalmente, mais cinquenta minutos de folga na agitação da vida.
Cristina chega a casa e encontra os dois filhos mais novos a ver desenhos animados na televisão. A mãe quer ver o preço certo mas não pode mudar de canal porque não sabe onde pôs o comando. De certeza que os teus filhos o esconderam, reclama. O mais velho? Ainda não chegou, o costume, é um vadio. O jantar? Ainda há resto de sopa de ontem. Outra vez sopa não, reclama o filho febril. Cristina frita batatas e estrela uns ovos. O mais novo quase adormece à mesa, o do meio já quase não tem febre mas acha melhor não ir à escola no dia seguinte. O mais velho chega tarde mas com uns óculos de sol novos. Já comeu uma bifana lá fora mas ainda é capaz de morfar umas batatas fritas em óleo velho. A mãe reclama que se janta muito tarde lá em casa e que tinha um recado importante para dar a Cristina mas a cabeça está esquecida.
Na televisão comprada a prestações, fala-se de leis e ministros, da guerra num tal de Iraque, do aumento do IVA. Cristina não ouve. Aquelas coisas não fazem parte do seu mundo, não lhe interessam, não as percebe. A seguir há louça para lavar, filhos para deitar, roupa para engomar. Adormece à meia-noite mas é acordada várias vezes: o filho mais novo ainda não consegue dormir uma noite seguida; o filho do meio afinal ainda tem mesmo febre, fala durante o sono e acorda sobressaltado; a mãe confunde-se com as horas e levanta-se antes do sol nascer. Contudo, Cristina não reclama. Sabe que pode descansar no comboio. Sabe que tem a melhor família do mundo que conhece e do outro mundo, que nunca viu. E isso basta-lhe.
05/04/2008
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