Tenho um telemóvel que só dá para fazer chamadas. Em pleno século XXI, o meu telemóvel está incapacitado de receber e enviar mensagens, tirar fotografias, filmar, reproduzir mp3, aceder à internet ou sequer bloquear o teclado. O meu nokia decidiu regressar às origens e reduzir as suas potencialidades à função primária dos telefones: telefonar. Um flagelo!
Acho que o deus das novas tecnologias decidiu pôr-me à prova. Estive praticamente quatro dias (quatro!) sem internet. Quatro dias (quatro dias!) sem abrir o gmail, sem actualidade noticiosa, sem cargadetrabalhos.net e net-empregos.pt. As minhas aldeias do travian estiveram quatro dias nas mãos de sitters desconhecidos (mas o travian já não me apoquenta).
Resisti como uma menina crescida. Quase consegui esquecer que vivo – ou o mundo ocidental vive – dependente da internet. No entanto, precisamente no dia em que recupero a internet, o meu telemóvel adoece. São coincidências a mais. O deus das tecnologias só pode estar contra mim.
O meu telemóvel ainda está na garantia, por isso dirigi-me à loja onde o comprei. “Isto deve ser problema de software”, disse-me a empregada com ar entendido (“ena, que novidade”, pensei eu). A coisa correu bem até eu pedir um telemóvel de substituição. A loja – cujo nome não vou divulgar, por delicadeza – não tinha nenhum telemóvel livre. Perante a minha insistência (não posso ficar sem telemóvel!), a senhora foi buscar um nokia 3310 (aquele que todos os jovens sonhavam ter há uns 8 anos atrás) que tinha acabado de receber e que não sabia se funcionava. Fiquei um pouco confusa. Segundo o contrato que eu acabara de assinar, o cliente tem de pagar 5 euros de caução para receber um telemóvel emprestado. Ora, para que serve a caução se depois ninguém confirma se o aparelho é entregue em boas condições? Mistérios. Procedimentos demasiado complexos para o meu entendimento. De qualquer forma, o nokia 3310 – que parecia acabado de sair da guerra e que só ligou à segunda ou terceira tentativa – não aceitou o meu cartão. Estava bloqueado. Sim, porque uma loja que vende telemóveis e cartões de todas as redes tem para empréstimo telemóveis bloqueados. Parece-me uma medida lógica.
Conclusão: voltei para casa com o meu telemóvel uni-função. Agora, vou passar os próximos dias a tentar convencer-me que os telemóveis servem para telefonar.
29/04/2008
23/04/2008
Dia do Livro
Aproveitei o Dia do Livro para reflectir sobre as obras que li nos últimos meses. Li coisas bastante boas, coisas medianamente boas e... Paulo Coelho (perdoem-me os apreciadores...).
De entre a boa literatura com que me deliciei, resolvi destacar e sugerir aos caríssimos dois leitores que vagueiam pelo meu estaminé um romance de valter hugo mãe: "O Remorso de Baltazar Serapião".
A história, que se passa na Idade Média, gira em torno de Baltazar, um jovem proveniente de uma família pobre, que tem uma relação peculiar com a sua vaca de estimação (ao ponto de correr na aldeia o boato de que Baltazar e os irmãos são filhos da vaca e não da senhora a quem chamam mãe...). Ora, um dia, Baltazar apaixona-se e casa-se com Ermelinda, a jovem mais bela da aldeia. E é aí que as complicações começam. Como é sabido, a mulher (ser burro e inferior) deve respeitar e obedecer ao seu marido (homem e, portanto, sábio e conhecedor das coisas do mundo). Um bom marido, por seu turno, deve saber "educar" a sua esposa-cognitivamente-limitada . Como? Com pontapés, murros, braços torcidos e olhos arrancados, por exemplo. E é aí que o romance ganha contemporaneidade. Ainda que a forma como o autor escreve – tentando recriar a linguagem da época – tenha muitas vezes um registo quase cómico, é impossível (principalmente para as leitoras do sexo feminino) não sentir revolta pela forma como as mulheres são humilhadas ao longo da história. Uma obra desaconselhada a feministas com problemas cardíacos.
Para quem ainda não está convencido, tenho mais um argumento: “O Remorso de Baltazar Serapião” valeu a valter hugo mãe o Prémio José Saramago, em 2007. Sim, valter hugo mãe também brinca com a pontuação (ou com a falta dela), tal como Saramago. E não gosta de maiúsculas.
Para quem está curioso, deixo ainda um excerto do livro, retirado mais ou menos ao acaso (já o li há uns tempos e já não sei ao certo onde estão as melhores passagens):
“a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos. assim se fazia a minha mãe, barafustando de dia, mas liberta das intenções de nos educar coisas inúteis ou falsas, que fizessem de nós rapazes menos homens ou simplesmente iludidos com um mundo que só as mulheres imaginavam."
De entre a boa literatura com que me deliciei, resolvi destacar e sugerir aos caríssimos dois leitores que vagueiam pelo meu estaminé um romance de valter hugo mãe: "O Remorso de Baltazar Serapião".
A história, que se passa na Idade Média, gira em torno de Baltazar, um jovem proveniente de uma família pobre, que tem uma relação peculiar com a sua vaca de estimação (ao ponto de correr na aldeia o boato de que Baltazar e os irmãos são filhos da vaca e não da senhora a quem chamam mãe...). Ora, um dia, Baltazar apaixona-se e casa-se com Ermelinda, a jovem mais bela da aldeia. E é aí que as complicações começam. Como é sabido, a mulher (ser burro e inferior) deve respeitar e obedecer ao seu marido (homem e, portanto, sábio e conhecedor das coisas do mundo). Um bom marido, por seu turno, deve saber "educar" a sua esposa-cognitivamente-limitada . Como? Com pontapés, murros, braços torcidos e olhos arrancados, por exemplo. E é aí que o romance ganha contemporaneidade. Ainda que a forma como o autor escreve – tentando recriar a linguagem da época – tenha muitas vezes um registo quase cómico, é impossível (principalmente para as leitoras do sexo feminino) não sentir revolta pela forma como as mulheres são humilhadas ao longo da história. Uma obra desaconselhada a feministas com problemas cardíacos.
Para quem ainda não está convencido, tenho mais um argumento: “O Remorso de Baltazar Serapião” valeu a valter hugo mãe o Prémio José Saramago, em 2007. Sim, valter hugo mãe também brinca com a pontuação (ou com a falta dela), tal como Saramago. E não gosta de maiúsculas.
Para quem está curioso, deixo ainda um excerto do livro, retirado mais ou menos ao acaso (já o li há uns tempos e já não sei ao certo onde estão as melhores passagens):
“a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos. assim se fazia a minha mãe, barafustando de dia, mas liberta das intenções de nos educar coisas inúteis ou falsas, que fizessem de nós rapazes menos homens ou simplesmente iludidos com um mundo que só as mulheres imaginavam."
22/04/2008
Precisa-se comercial (m/f)
O que Portugal precisa é de comerciais. Esta é a principal lição que retiro de cinco meses de consultas diárias a sites de anúncios de emprego. Faltam médicos nos hospitais? Talvez isso se resolva com a contratação de mais um ou dois comerciais. Há professores a mais? Não há problema, há por aí muita vaga de comercial para lhes dar de comer. O trabalho de pedreiro é demasiado duro? Está na hora de responder a um anúncio de comercial.
A formação académica pouco interessa. Só é preciso ter "boa apresentação", "boa capacidade de trabalho", "dinamismo" e "ambição pessoal". E para os mais tímidos ou com uma apresentação menos boa há sempre o telemarketing. A promessa, essa, é sempre a mesma: rendimentos acima da média.
Quando os portugueses descobrirem esta mina dos ovos de ouro vamos tornar-nos num país de ricos. E depois podemos fechar escolas, fábricas, jornais, serviços públicos e todos esses locais de trabalho a que o comum mortal está habituado. Dez milhões de pessoas a vender banha da cobra entre si, eis a receita para acabar com o desemprego.
A formação académica pouco interessa. Só é preciso ter "boa apresentação", "boa capacidade de trabalho", "dinamismo" e "ambição pessoal". E para os mais tímidos ou com uma apresentação menos boa há sempre o telemarketing. A promessa, essa, é sempre a mesma: rendimentos acima da média.
Quando os portugueses descobrirem esta mina dos ovos de ouro vamos tornar-nos num país de ricos. E depois podemos fechar escolas, fábricas, jornais, serviços públicos e todos esses locais de trabalho a que o comum mortal está habituado. Dez milhões de pessoas a vender banha da cobra entre si, eis a receita para acabar com o desemprego.
18/04/2008
É (mesmo) tão bom
Não resisto.
Estava a ouvir o "Nove e meia no Maria Matos" e cheguei a esta música. Confesso que não tenho a certeza se me lembro dos desenhos animados "Os amigos do Gaspar". Tenho uma vaga ideia daqueles bonecos mas não sei se estou a confundi-los com outros quaisquer. Naquela altura os bonecos eram todos iguais: toscos e desengonçados (e eram tão mais engraçados assim!). Além disso, toda a minha infância se resume a dois desenhos animados: a Rua Sésamo e o Babar. O certo é que, agora que passaram uns anitos, apercebo-me que a música da Rua Sésamo - ainda que tenha aquele gosto doce de nostalgia - fica encolhida num canto envergonado quando confrontada com a música d'"Os Amigos do Gaspar".
Posso dizer que o Sr. Sérgio Godinho é genial?
Estava a ouvir o "Nove e meia no Maria Matos" e cheguei a esta música. Confesso que não tenho a certeza se me lembro dos desenhos animados "Os amigos do Gaspar". Tenho uma vaga ideia daqueles bonecos mas não sei se estou a confundi-los com outros quaisquer. Naquela altura os bonecos eram todos iguais: toscos e desengonçados (e eram tão mais engraçados assim!). Além disso, toda a minha infância se resume a dois desenhos animados: a Rua Sésamo e o Babar. O certo é que, agora que passaram uns anitos, apercebo-me que a música da Rua Sésamo - ainda que tenha aquele gosto doce de nostalgia - fica encolhida num canto envergonado quando confrontada com a música d'"Os Amigos do Gaspar".
Posso dizer que o Sr. Sérgio Godinho é genial?
Gmailodependência
Padeço de uma doença nova e invulgar que eu própria descobri. Ainda não registei a patente, mas decidi chamar-lhe gmailodependência. Ora, a gmailodependência é uma perturbação do foro psicológico que leva o indivíduo a desenvolver uma obsessão pelo seu gmail. Uma espécie de vício, ainda que não cause suores e espasmos quando o corpo não recebe a dose certa de horas em frente ao gmail.
Chamei-lhe gmailodependência e não simplesmente mailodependência porque o sentimento de falta só se verifica em relação ao gmail. Vejamos: consigo perfeitamente passar um ou dois dias sem abrir o meu e-mail da Hotmail sem que isso me cause qualquer tipo de transtorno; aliás, por vezes até me esqueço da existência dessa caixa de correio electrónico. Contudo, uma hora sem fazer refresh no gmail deixa-me angustiada. A quantidade de mensagens que posso (não) receber numa hora! Mais: sou capaz de dar uma escapadinha à internet e nem sequer verificar como estão as minhas aldeias do travian. Mas o gmail, esse, não posso deixar de espreitar. Eu sei que este comportamento deve parecer estranho àqueles que têm vícios normais e saudáveis – como o vício do travian, por exemplo – mas este tipo de maleitas são mesmo assim. Não as escolhemos, apanham-nos sempre desprevenidos.
Apesar de ser difícil lidar com esta doença, tenho conseguido manter uma vida quase normal. Abrir o gmail de manhã, depois de almoço, ao fim tarde e à noite tem chegado para me manter calma ao longo do dia. Ainda nem foi preciso recorrer a calmantes. De qualquer forma, vou ver se descubro a medicação para me livrar por completo deste vício. É que daqui a uns meses vem o Verão e quero poder estar na praia descansada, sem ver as letras “caixa de entrada” reflectidas no mar.
Chamei-lhe gmailodependência e não simplesmente mailodependência porque o sentimento de falta só se verifica em relação ao gmail. Vejamos: consigo perfeitamente passar um ou dois dias sem abrir o meu e-mail da Hotmail sem que isso me cause qualquer tipo de transtorno; aliás, por vezes até me esqueço da existência dessa caixa de correio electrónico. Contudo, uma hora sem fazer refresh no gmail deixa-me angustiada. A quantidade de mensagens que posso (não) receber numa hora! Mais: sou capaz de dar uma escapadinha à internet e nem sequer verificar como estão as minhas aldeias do travian. Mas o gmail, esse, não posso deixar de espreitar. Eu sei que este comportamento deve parecer estranho àqueles que têm vícios normais e saudáveis – como o vício do travian, por exemplo – mas este tipo de maleitas são mesmo assim. Não as escolhemos, apanham-nos sempre desprevenidos.
Apesar de ser difícil lidar com esta doença, tenho conseguido manter uma vida quase normal. Abrir o gmail de manhã, depois de almoço, ao fim tarde e à noite tem chegado para me manter calma ao longo do dia. Ainda nem foi preciso recorrer a calmantes. De qualquer forma, vou ver se descubro a medicação para me livrar por completo deste vício. É que daqui a uns meses vem o Verão e quero poder estar na praia descansada, sem ver as letras “caixa de entrada” reflectidas no mar.
17/04/2008
“I am lengend” ou “como estragar um filme em poucos minutos”
A imagem de um homem a deambular sozinho numa cidade destruída, a conversar apenas com a sua cadela e com bonecos-manequins com quem se cruza na rua, sujeito a um recolher obrigatório ao anoitecer para se proteger de mostrengos raivosos é, quanto a mim, bastante perturbadora. Não sendo um filme genial, “I am legend” até foi interessante e agarrou-me ao ecrã durante algum tempo. Os cenários de Nova Iorque devastada são muito bons, Will Smith consegue carregar o filme nos ombros praticamente sozinho sem que isso se torne aborrecido – pelo contrário, o actor consegue transmitir na perfeição a angústia, sofrimento e frustração que é suposto sentir o último habitante da terra. E depois há a cadela Sam, uma ternura (merecedora de um Óscar).
Há bons momentos de suspense até metade do filme mas à medida que se aproxima o final o desinteresse vai ganhando terreno. Andou Will Smith sozinho durante três anos à procura da cura para o vírus que quase destruiu a humanidade e, de repente, Deus aparece para, do alto da sua grandiosidade, mostrar o caminho para a salvação. Apetece dizer: “onde andou Deus durante aqueles três anos, que não pôde aparecer mais cedo?”. Em poucos minutos, Smith encontra a cura para o vírus e abdica da sua própria vida para salvar o mundo. E os poucos que sobreviveram até ali, “fechados numa zona segura” (sim, afinal havia mais gente), viveram felizes para sempre, presume-se. Estou a estragar a surpresa a quem estivesse interessado em ver o filme pela primeira vez? Nem por isso. O final não surpreende ninguém, a não ser que seja pela negativa. Previsível, precipitado e pouco convincente. E assim se estraga o que até podia ser um bom filme.
[Sim, eu sei que este filme já saiu em 2007 e que, em Abril de 2008, já meio mundo o deve ter visto, o que faz com que este post não tenha qualquer pertinência. Mas eu ainda tenho esperança que haja mais uma ou duas pessoas como eu, que vão pouco ao cinema e vêem sempre os filmes com vários meses de atraso :p]
Há bons momentos de suspense até metade do filme mas à medida que se aproxima o final o desinteresse vai ganhando terreno. Andou Will Smith sozinho durante três anos à procura da cura para o vírus que quase destruiu a humanidade e, de repente, Deus aparece para, do alto da sua grandiosidade, mostrar o caminho para a salvação. Apetece dizer: “onde andou Deus durante aqueles três anos, que não pôde aparecer mais cedo?”. Em poucos minutos, Smith encontra a cura para o vírus e abdica da sua própria vida para salvar o mundo. E os poucos que sobreviveram até ali, “fechados numa zona segura” (sim, afinal havia mais gente), viveram felizes para sempre, presume-se. Estou a estragar a surpresa a quem estivesse interessado em ver o filme pela primeira vez? Nem por isso. O final não surpreende ninguém, a não ser que seja pela negativa. Previsível, precipitado e pouco convincente. E assim se estraga o que até podia ser um bom filme.
[Sim, eu sei que este filme já saiu em 2007 e que, em Abril de 2008, já meio mundo o deve ter visto, o que faz com que este post não tenha qualquer pertinência. Mas eu ainda tenho esperança que haja mais uma ou duas pessoas como eu, que vão pouco ao cinema e vêem sempre os filmes com vários meses de atraso :p]
05/04/2008
os fuso-horários da tv portuguesa
A aborrecida repetição da programação televisiva torna-se hilariante quando ligamos a televisão ao sábado à tarde e está a dar o "Sexta à noite".
abstracção sem título
O mundo de Cristina só conhecia dois espaços: a casa apertada da mãe, onde morara desde sempre e onde cresciam agora os seus três filhos; e o café onde trabalhava de segunda a sábado. A uni-los, o comboio suburbano, sempre apinhado de gente, que ligava a pequena aldeia de Cristina à cidade que parecia enorme a seus olhos, mas que não passava de uma aldeia um pouco mais gorda que as restantes.
Sete da manhã, o comboio avança, pouca terra, pouca terra, e Cristina vai pensando no que deixou para trás. O filho mais novo já vestido e com o pequeno-almoço tomado; o filho do meio, que acordou com febre e foi autorizado a faltar às aulas; o filho mais velho, sempre revoltado com tudo e todos, que ficara na cama mas prometera não chegar atrasado ao trabalho. Três filhos, todos homens. Três pais, todos desaparecidos. Duas mulheres – uma delas já sem força e um pouco esquecida de memórias e obrigações – para pôr ordem na casa. O pequeno ordenado de Cristina para a comida, as fraldas, a limpeza, a luz, a água, o gás, os livros, as canetas, a roupa, o empréstimo da televisão. A curta reforma da mãe para ajudar nas despesas. Os trocos ganhos pelo filho mais velho para a mota, os ténis de marca e o telemóvel.
A viagem de comboio funciona como horário de descanso da vida de Cristina. Longe da rebeldia e indignação do filho mais velho, das dúvidas com a matemática do do meio, dos choros e birras do mais pequeno, da rabugice da mãe, sempre confundida com os horários e esquecida de onde pousara o comando da televisão. Longe do patrão que reclama trabalho mas não paga horas extraordinárias, da ladainha constante do “era um café se faxavor”, dos piropos dos clientes e dos olhares de inveja das senhoras. Sim, porque Cristina – 35 anos, três filhos, ginásio nunca visto, comida calórica ao jantar, sandes ao almoço quando calhava ter cinco minutos para a refeição – mantinha um corpo invejável. Cristina sabia-o mas não podia perder tempo a pensar nisso. O seu mundo dividido entre a casa e o café era demasiado absorvente.
O comboio atrasa-se, como vem sendo hábito. Cristina corre para o café. Veste a bata. Liga a máquina. Entram os clientes. Cafés com e sem cheirinho, torradas, bolos de arroz, são dois euros e meio por favor, galões, minis, vinho tinto, não se esqueça do troco, pastilhas elásticas, mais cafés, mais torradas, mais bolos, mais galões, Cristina cansada. Os vidros têm de estar a brilhar, a louça é para lavar, o chão para limpar. Seis da tarde, novo comboio para apanhar. Finalmente, mais cinquenta minutos de folga na agitação da vida.
Cristina chega a casa e encontra os dois filhos mais novos a ver desenhos animados na televisão. A mãe quer ver o preço certo mas não pode mudar de canal porque não sabe onde pôs o comando. De certeza que os teus filhos o esconderam, reclama. O mais velho? Ainda não chegou, o costume, é um vadio. O jantar? Ainda há resto de sopa de ontem. Outra vez sopa não, reclama o filho febril. Cristina frita batatas e estrela uns ovos. O mais novo quase adormece à mesa, o do meio já quase não tem febre mas acha melhor não ir à escola no dia seguinte. O mais velho chega tarde mas com uns óculos de sol novos. Já comeu uma bifana lá fora mas ainda é capaz de morfar umas batatas fritas em óleo velho. A mãe reclama que se janta muito tarde lá em casa e que tinha um recado importante para dar a Cristina mas a cabeça está esquecida.
Na televisão comprada a prestações, fala-se de leis e ministros, da guerra num tal de Iraque, do aumento do IVA. Cristina não ouve. Aquelas coisas não fazem parte do seu mundo, não lhe interessam, não as percebe. A seguir há louça para lavar, filhos para deitar, roupa para engomar. Adormece à meia-noite mas é acordada várias vezes: o filho mais novo ainda não consegue dormir uma noite seguida; o filho do meio afinal ainda tem mesmo febre, fala durante o sono e acorda sobressaltado; a mãe confunde-se com as horas e levanta-se antes do sol nascer. Contudo, Cristina não reclama. Sabe que pode descansar no comboio. Sabe que tem a melhor família do mundo que conhece e do outro mundo, que nunca viu. E isso basta-lhe.
Sete da manhã, o comboio avança, pouca terra, pouca terra, e Cristina vai pensando no que deixou para trás. O filho mais novo já vestido e com o pequeno-almoço tomado; o filho do meio, que acordou com febre e foi autorizado a faltar às aulas; o filho mais velho, sempre revoltado com tudo e todos, que ficara na cama mas prometera não chegar atrasado ao trabalho. Três filhos, todos homens. Três pais, todos desaparecidos. Duas mulheres – uma delas já sem força e um pouco esquecida de memórias e obrigações – para pôr ordem na casa. O pequeno ordenado de Cristina para a comida, as fraldas, a limpeza, a luz, a água, o gás, os livros, as canetas, a roupa, o empréstimo da televisão. A curta reforma da mãe para ajudar nas despesas. Os trocos ganhos pelo filho mais velho para a mota, os ténis de marca e o telemóvel.
A viagem de comboio funciona como horário de descanso da vida de Cristina. Longe da rebeldia e indignação do filho mais velho, das dúvidas com a matemática do do meio, dos choros e birras do mais pequeno, da rabugice da mãe, sempre confundida com os horários e esquecida de onde pousara o comando da televisão. Longe do patrão que reclama trabalho mas não paga horas extraordinárias, da ladainha constante do “era um café se faxavor”, dos piropos dos clientes e dos olhares de inveja das senhoras. Sim, porque Cristina – 35 anos, três filhos, ginásio nunca visto, comida calórica ao jantar, sandes ao almoço quando calhava ter cinco minutos para a refeição – mantinha um corpo invejável. Cristina sabia-o mas não podia perder tempo a pensar nisso. O seu mundo dividido entre a casa e o café era demasiado absorvente.
O comboio atrasa-se, como vem sendo hábito. Cristina corre para o café. Veste a bata. Liga a máquina. Entram os clientes. Cafés com e sem cheirinho, torradas, bolos de arroz, são dois euros e meio por favor, galões, minis, vinho tinto, não se esqueça do troco, pastilhas elásticas, mais cafés, mais torradas, mais bolos, mais galões, Cristina cansada. Os vidros têm de estar a brilhar, a louça é para lavar, o chão para limpar. Seis da tarde, novo comboio para apanhar. Finalmente, mais cinquenta minutos de folga na agitação da vida.
Cristina chega a casa e encontra os dois filhos mais novos a ver desenhos animados na televisão. A mãe quer ver o preço certo mas não pode mudar de canal porque não sabe onde pôs o comando. De certeza que os teus filhos o esconderam, reclama. O mais velho? Ainda não chegou, o costume, é um vadio. O jantar? Ainda há resto de sopa de ontem. Outra vez sopa não, reclama o filho febril. Cristina frita batatas e estrela uns ovos. O mais novo quase adormece à mesa, o do meio já quase não tem febre mas acha melhor não ir à escola no dia seguinte. O mais velho chega tarde mas com uns óculos de sol novos. Já comeu uma bifana lá fora mas ainda é capaz de morfar umas batatas fritas em óleo velho. A mãe reclama que se janta muito tarde lá em casa e que tinha um recado importante para dar a Cristina mas a cabeça está esquecida.
Na televisão comprada a prestações, fala-se de leis e ministros, da guerra num tal de Iraque, do aumento do IVA. Cristina não ouve. Aquelas coisas não fazem parte do seu mundo, não lhe interessam, não as percebe. A seguir há louça para lavar, filhos para deitar, roupa para engomar. Adormece à meia-noite mas é acordada várias vezes: o filho mais novo ainda não consegue dormir uma noite seguida; o filho do meio afinal ainda tem mesmo febre, fala durante o sono e acorda sobressaltado; a mãe confunde-se com as horas e levanta-se antes do sol nascer. Contudo, Cristina não reclama. Sabe que pode descansar no comboio. Sabe que tem a melhor família do mundo que conhece e do outro mundo, que nunca viu. E isso basta-lhe.
03/04/2008
Cavalheiros do Apocalipse
Ainda vi poucos vídeos mas já deu para perceber que são todos bastante parvos. Humor com pronúncia do Norte. Gosto!
Vou continuar a ver parvoíces, aqui
Famílias numerosas
Alguém me consegue explicar como é que o jornal “Sol” mantém as editorias “Conversas na prisão” (no caderno principal) e, sobretudo, “Famílias numerosas” (na Tabu)? Sou só eu que acho que o interesse daquilo se esgotou logo ao fim do primeiro mês? Ok, confesso, nunca me interessei particularmente por aquele tipo de "jornalismo". Mas, vá, mesmo quem gosta, não devia estar já um bocadinho aborrecido de ler sempre o mesmo tipo de estórias?
Ainda assim, admiro os senhores da Tabu por conseguirem encontrar tanta família numerosa e feliz por esse Portugal fora. Já devem sobrar poucas.
Deliciem-se com o superlead publicado na última edição:
Nove filhos, sete raparigas e dois rapazes, enchem de alegria a vida da aldeia Chão de Sobral onde o clã Luís ergue a sua ‘fortaleza’. Harmonia e simplicidade reunidas numa família especial.
Ora, o "Sol" foi lançado em Setembro de 2006 e, desde então, apresenta uma família numerosa todas as semanas. Segundo as minhas contas, já posaram para os fotógrafos da Tabú mais de 70 famílias. Mas, atenção, esta é especial! Não duvido.
Ainda assim, admiro os senhores da Tabu por conseguirem encontrar tanta família numerosa e feliz por esse Portugal fora. Já devem sobrar poucas.
Deliciem-se com o superlead publicado na última edição:
Nove filhos, sete raparigas e dois rapazes, enchem de alegria a vida da aldeia Chão de Sobral onde o clã Luís ergue a sua ‘fortaleza’. Harmonia e simplicidade reunidas numa família especial.
Ora, o "Sol" foi lançado em Setembro de 2006 e, desde então, apresenta uma família numerosa todas as semanas. Segundo as minhas contas, já posaram para os fotógrafos da Tabú mais de 70 famílias. Mas, atenção, esta é especial! Não duvido.
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