28/02/2008

Acabou hoje

Parece que sou oficialmente licenciada em Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.
Mal saí da bonita e arejada sala do IEJ onde terminei o meu curso, fiz a mim própria a questão base do “bom” jornalismo:
Sandra, como é que te sentes?

Sinto-me igual. Afinal, a conclusão da licenciatura é a parte menos empolgante destes quatro anos. Na verdade, para mim o curso acabou em Julho, quando saiu a última Cabra em que colaborei e quando empacotei a minha vida nos caixotes que o senhor Ferreira da mercearia gentilmente me cedeu. A única diferença é que, agora, quando enviar currículos a dizer que sou licenciada, já não estou a mentir. Ah, e posso usar licenciada como primeiro nome. Se bem que "Licenciada Sandra Mesquita Ferreira" não soa muito bem. Se calhar, em vez disso, vou antes assinar "Dótôra [mas tem de ser com acento no "o"] Sandra Mesquita Ferreira".
Ou então fico-me, simplesmente, pelo "SMF".

26/02/2008

Mariana passava os dias à espera do telefonema. Comprou um telemóvel novo – daqueles com toques polifónicos, câmara de filmar, rádio, televisão, bússola e termómetro – e preparou-se para o momento que mudaria a sua vida. Treinou afincadamente as respostas às perguntas que lhe seriam colocadas. Repetiu o cenário imaginário trezentas e sessenta e quatro vezes até que começou a confundir os advérbios com as conjunções. Decidiu então que não treinaria mais e, quando o telefone tocasse, improvisaria.
Mariana esperou sentada no chão da varanda de sua casa. Dias. Semanas. Meses. Até que veio o Inverno e a chuva e Mariana teve de passar a aguardar na sala, recostada no seu puff verde-esperança, com o telemóvel no bolso do avental.
Os dias de Mariana eram todos iguais: acordar, olhar para o telemóvel, vestir-se, olhar para o telemóvel, comer, olhar para o telemóvel, ver televisão, ver o telemóvel, o telemóvel, o telemóvel… Maldito telemóvel que não tocava!
Mariana começou a achar que eram as canções que escolhia para toque que lhe estavam a dar azar. A partir daí, mudava de música todos os dias, na procura infrutífera da banda sonora ideal. Queen, Smashing Pumpkins, Radiohead, Celine Dion, Ornatos Violeta, Delfins, Santos e Pecadores, Excesso, Ágata – todos passaram pelo telemóvel de Mariana, mas nenhum chegou a presenteá-la com a sua música.
Assim se passaram anos de dias iguais e aborrecidos. Até que um dia, estava Mariana a dormir a sesta no sofá, embrulhada na sua manta de algodão – o seu corpo já não se sentia confortável no velho puff verde-esmorecido – quando a voz do padre Borga saiu dos pequenos orifícios do telemóvel. Acordou sobressaltada. Finalmente, o telefonema chegara! Desajeitada como sempre fora, trôpega da velhice e do sono, deixou cair o telemóvel, que se perdeu por entre a manta. Desesperada, sacudiu o cobertor, seguiu os aleluias entoados pelo padre e, no último segundo, conseguiu atender a chamada. “Estou a falar com a D. Mariana Paciência?” – ouviu-se do outro lado. “Sim, é a própria” – deixou sair a velha numa voz esganiçada de emoção. “Posso fazer-lhe algumas perguntas?”. “Claro, estou à disposição” (Marina quase tinha um enfarte agudo do miocárdio com tanta alegria). A voz continuou: “Estou a fazer um inquérito sobre os hábitos do portugueses, para um estudo da universidade de…”. “Um inquérito?” interrompeu Mariana. “Sim, são só umas perguntinhas, não demora mais de cinco minutos”. Mariana desligou bruscamente o telemóvel, as lágrimas a escorregarem-lhe pela face. Esmigalhou-o em quantos bocadinhos conseguiu e enterrou os restos mortais no quintal, debaixo da laranjeira. Voltou a deitar-se, enroscada na sua manta quentinha, e adormeceu.

21/02/2008

Ele há coisas giras II

«Manuel Rosa, o responsável da editora Assírio & Alvim, foi ontem dado como morto. Através de SMS, telefonemas e até da blogosfera, a notícia, que era falsa, correu de Lisboa ao Porto(…)"Terça-feira à noite, alguém que não sabemos quem é, mas que esperamos que a polícia descubra, telefonou para muita gente minha conhecida, desde os meus pais a amigos próximos, a contar uma história em que eu teria morrido num acidente de automóvel", explicou ontem o editor ao PÚBLICO.»
("Público" de 21/02/2008)

Ok, esta nem é assim tão gira. É até um bocado triste. Quem é que se lembra de gastar dinheiro em chamadas telefónicas para anunciar uma morte que não existe? Há por aí pessoas muito estranhas. Deve ser excesso de tempo livre. Mas, com tanto telelixo e chats da teletexto para ocupar o tempo, era mesmo preciso incomodar os amigos do sr. Manuel Rosa?

Ela há coisas giras I

«Contra as interdições impostas pela Lei do Tabaco, a Associação de Bares da Zona Histórica do Porto desafiou ontem os seus associados a transformar as suas empresas em associações culturais e recreativas sem fins lucrativos como forma de contornar a proibição de fumar. "É como um espaço privado, onde é permitido fumar", sustentou António Fonseca, daquela associação, baseando-se no facto de, dentro das tipificações estabelecidas, a Lei n.º 37/2007 ser omissa relativamente às associações culturais. (…) Para frequentarem os bares e discotecas, os clientes passarão a ter que se registar como sócios. "A maioria das discotecas já trabalha com listas de clientes. Não será muito diferente: o que altera é a figura jurídica do estabelecimento", sublinhou António Fonseca, sustentando que "o cliente pode fazer a inscrição à entrada, pagando uma quota simbólica de um euro".»
(Jornal "Público" de 21/02/2008)

Os portugueses são mesmo muito bons no que toca a contornar a legislação. Pelo menos não podem ser acusados de falta de vontade ou de imaginação. Parece-me uma boa ideia, é uma forma de reforçar os laços entre os frequentadores da noite e de voltar “ao tempo antigo”, em que toda a gente era sócia da associação da aldeia. E, calha bem, já que vamos todos ficar com a carteira mais vazia com a introdução do cartão do cidadão, podemos utilizar o espaço livre para pôr os cartões de sócio das discotecas. Ou será que não vai haver cartões? E aqueles cobradores de cotas que vão bater à porta de todos os sócios, também vão renascer, ou nem por isso?

20/02/2008

o lado fixe da vida

O meu dicionário pessoal de língua portuguesa ganhou ontem uma palavra nova: "vernheque". O que é que quer dizer vernheque? Não interessa, é uma palavra gira, que soa bem. E isso chega. Ora, vernheque e o lema "olha sempre para o lado fixe da vida (ou da morte)" foram dois dos importantes contributos da peça "Os Melhores Sketches dos Monty Python" para a minha vidinha futura.
Há muito que aguardava impaciente e ansiosamente a oportunidade de ver esta peça. As expectativas eram, portanto, bastante altas mas não saíram defraudadas. Os sketches dos Monty Phython são, como se sabe, deliciosamente parvos. O Nuno Markl também é bastante bom no que toca a parvoíces e fez uma adaptação bastante catita. E aqueles cinco palhaços (no bom sentido do termo) que sobem ao palco estão à altura do desafio.
O trabalho de José Pedro Gomes e António Feio já é sobejamente conhecido e não espanta muito. Jorge Mourato - o actor sobre o qual tinha mais dúvidas, por não associar a este tipo de humor - esteve bem, principalmente quando interpretava papéis femininos. A morte da mãe do criador da piada assassina, protagonizada por ele, foi um dos momentos mais hilariantes da noite. Bruno Nogueira mostrou que sabe ser actor e fazer rir sem utilizar o seu habitual e característico registo monocórdico. Além disso, o facto de ser alto e desengonçado só aumenta o grau de comicidade das cenas onde participa. Mas a principal surpresa da noite foi mesmo Miguel Guilherme, o melhor em palco. Até custa a crer que aquele é o mesmo senhor de ar sisudo que ralha com o Carlitos aos domingos à noite, na série "Conta-me como foi". Muito bom.
Em resumo: gostava de repetir a experiência, não só porque o espectáculo é bom como também porque perdi várias piadas devido à péssima qualidade de som do Coliseu do Porto. Quem me mandou armar em fina e ir ver a peça sentada nos bancos de pedra do Coliseu, a vários quilómetros de distância do palco, em vez de me ter ficado pelas cadeiras almofadadas e fofinhas do Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz? Pois, ninguém. É a chamada estupidez de quem nunca tinha entrado no Coliseu do Porto. Para a próxima já não me enganam. Mas, enfim, vou esquecer esse pormenor. Afinal, há que olhar sempre para o lado fixe da vida. Vernheque.

12/02/2008

Snoopy


11/02/2008

"José Arcadio Buendía deu consigo, certa noite, às voltas na cama sem conseguir dormir. Úrsula, que também acordara, perguntou-lhe o que tinha e ele respondeu-lhe: «Estou a pensar outra vez em Prudencio Aguilar». Não dormiram um minuto, mas no dia seguinte sentiram-se tão descansados que se esqueceram da noite mal passada. [...] Não se alarmaram até ao terceiro dia, quando, à hora de se deitarem, se sentiram sem sono e se deram conta que estavam há mais de cinquenta horas sem dormir.
- As crianças também estão acordadas - disse a índia com a sua convicção fatalista. - Uma vez entrada em casa, ninguém foge à peste.
Com efeito, tinham contraído a doença da insónia".
[Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Márquez]


Tenho tido pouco sono. Logo eu, que adoro dormir! Ainda hoje acordei às 6h30 da madrugada e não conseguir voltar a adormecer...


será que a peste da insónia também se instalou em minha casa?