26/02/2008

Mariana passava os dias à espera do telefonema. Comprou um telemóvel novo – daqueles com toques polifónicos, câmara de filmar, rádio, televisão, bússola e termómetro – e preparou-se para o momento que mudaria a sua vida. Treinou afincadamente as respostas às perguntas que lhe seriam colocadas. Repetiu o cenário imaginário trezentas e sessenta e quatro vezes até que começou a confundir os advérbios com as conjunções. Decidiu então que não treinaria mais e, quando o telefone tocasse, improvisaria.
Mariana esperou sentada no chão da varanda de sua casa. Dias. Semanas. Meses. Até que veio o Inverno e a chuva e Mariana teve de passar a aguardar na sala, recostada no seu puff verde-esperança, com o telemóvel no bolso do avental.
Os dias de Mariana eram todos iguais: acordar, olhar para o telemóvel, vestir-se, olhar para o telemóvel, comer, olhar para o telemóvel, ver televisão, ver o telemóvel, o telemóvel, o telemóvel… Maldito telemóvel que não tocava!
Mariana começou a achar que eram as canções que escolhia para toque que lhe estavam a dar azar. A partir daí, mudava de música todos os dias, na procura infrutífera da banda sonora ideal. Queen, Smashing Pumpkins, Radiohead, Celine Dion, Ornatos Violeta, Delfins, Santos e Pecadores, Excesso, Ágata – todos passaram pelo telemóvel de Mariana, mas nenhum chegou a presenteá-la com a sua música.
Assim se passaram anos de dias iguais e aborrecidos. Até que um dia, estava Mariana a dormir a sesta no sofá, embrulhada na sua manta de algodão – o seu corpo já não se sentia confortável no velho puff verde-esmorecido – quando a voz do padre Borga saiu dos pequenos orifícios do telemóvel. Acordou sobressaltada. Finalmente, o telefonema chegara! Desajeitada como sempre fora, trôpega da velhice e do sono, deixou cair o telemóvel, que se perdeu por entre a manta. Desesperada, sacudiu o cobertor, seguiu os aleluias entoados pelo padre e, no último segundo, conseguiu atender a chamada. “Estou a falar com a D. Mariana Paciência?” – ouviu-se do outro lado. “Sim, é a própria” – deixou sair a velha numa voz esganiçada de emoção. “Posso fazer-lhe algumas perguntas?”. “Claro, estou à disposição” (Marina quase tinha um enfarte agudo do miocárdio com tanta alegria). A voz continuou: “Estou a fazer um inquérito sobre os hábitos do portugueses, para um estudo da universidade de…”. “Um inquérito?” interrompeu Mariana. “Sim, são só umas perguntinhas, não demora mais de cinco minutos”. Mariana desligou bruscamente o telemóvel, as lágrimas a escorregarem-lhe pela face. Esmigalhou-o em quantos bocadinhos conseguiu e enterrou os restos mortais no quintal, debaixo da laranjeira. Voltou a deitar-se, enroscada na sua manta quentinha, e adormeceu.

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