Aproveitei o Dia do Livro para reflectir sobre as obras que li nos últimos meses. Li coisas bastante boas, coisas medianamente boas e... Paulo Coelho (perdoem-me os apreciadores...).
De entre a boa literatura com que me deliciei, resolvi destacar e sugerir aos caríssimos dois leitores que vagueiam pelo meu estaminé um romance de valter hugo mãe: "O Remorso de Baltazar Serapião".
A história, que se passa na Idade Média, gira em torno de Baltazar, um jovem proveniente de uma família pobre, que tem uma relação peculiar com a sua vaca de estimação (ao ponto de correr na aldeia o boato de que Baltazar e os irmãos são filhos da vaca e não da senhora a quem chamam mãe...). Ora, um dia, Baltazar apaixona-se e casa-se com Ermelinda, a jovem mais bela da aldeia. E é aí que as complicações começam. Como é sabido, a mulher (ser burro e inferior) deve respeitar e obedecer ao seu marido (homem e, portanto, sábio e conhecedor das coisas do mundo). Um bom marido, por seu turno, deve saber "educar" a sua esposa-cognitivamente-limitada . Como? Com pontapés, murros, braços torcidos e olhos arrancados, por exemplo. E é aí que o romance ganha contemporaneidade. Ainda que a forma como o autor escreve – tentando recriar a linguagem da época – tenha muitas vezes um registo quase cómico, é impossível (principalmente para as leitoras do sexo feminino) não sentir revolta pela forma como as mulheres são humilhadas ao longo da história. Uma obra desaconselhada a feministas com problemas cardíacos.
Para quem ainda não está convencido, tenho mais um argumento: “O Remorso de Baltazar Serapião” valeu a valter hugo mãe o Prémio José Saramago, em 2007. Sim, valter hugo mãe também brinca com a pontuação (ou com a falta dela), tal como Saramago. E não gosta de maiúsculas.
Para quem está curioso, deixo ainda um excerto do livro, retirado mais ou menos ao acaso (já o li há uns tempos e já não sei ao certo onde estão as melhores passagens):
“a minha mãe deixava de falar comigo e com o aldegundes, porque lhe saíam coisas de mulher boca fora, e barafustar, como fazia, era encher os ouvidos dos homens com ignorâncias perigosas. uma mulher é ser de pouca fala, como se quer, parideira e calada, explicava o meu pai, ajeitada nos atributos, procriadora, cuidadosa com as crianças e calada para não estragar os filhos com os seus erros. também para não espalhar pela vizinhança a alma secreta da família, que há coisas do decoro da casa que se devem confinar aos nossos. assim se fazia a minha mãe, barafustando de dia, mas liberta das intenções de nos educar coisas inúteis ou falsas, que fizessem de nós rapazes menos homens ou simplesmente iludidos com um mundo que só as mulheres imaginavam."
23/04/2008
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